segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

O ESTRANHO MUNDO QUE SE MOSTRA ÀS CRIANÇAS


INTRODUÇÂO
 
Fanny Abramovich (São Paulo/ SP - 1940). Escritora de literatura infantil e juvenil, pedagoga e atriz. Em 1957, trabalha no Teatro Escola de São Paulo (Tesp), até 1962.  Cursa pedagogia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (FFCL/USP), conclui 1963. Recebe bolsa de estudo do governo francês, em 1965, e se especializa em arte e educação em Paris. Estuda tele-educação na rede de comunicação Radiotelevisione Italiana (RAI). Retorna ao Brasil e abre o Centro de Educação e Arte (CEA), por período de oito anos. Em 1977, escreve sobre educação infantil no Jornal da Tarde e outros periódicos. Em 1979, é co-autora, da publicação de Teatricina. Inicia na literatura infantil e juvenil em 1986, com “Deixa Isso pra Lá e Vamos Brincar”, que é reformulado dez anos depois, ganhando novo título: “Brincando de Antigamente”. Escreveu seu livro de memórias “Ziguezagues: Andanças de uma Educadora e Escritora”. Na área de pedagogia escreveu “O Estranho Mundo que Se Mostra às Crianças”, que é publicado em 1983, a série de críticas aos produtos culturais apresentados as crianças. A autora desconfia dos excessos e romantismos dedicados ao objeto de estudo, então passa a investiga-lo. Logo, o objetivo desta resenha é acompanhar as conclusões da autora para organizar comentários reflexivo-críticos sobre o livro “O estranho mundo que se apresenta as crianças”.

I CAPÍTULO - LITERATURA INFANTIL

É necessário que, ver e ler, literatura infantil seja parte do cotidiano de professores, autores e responsáveis por crianças; e mesmo reler, rever e averiguar sobre o como os autores desconstroem a realidade conteúdo do livro. É fato que cada autor compõe a margem de uma linha imaginária que isola a criança do mundo, abrigando a mesma no seu projeto ideal de sociedade. O conteúdo nos livros de literatura infantil tem de dialogar com crianças e adultos sobre as aventuras, desventuras, medos e dúvidas. Estes diálogos devem atender requintes gráficos, pois o respeito pela qualidade no acabamento, os cuidados com o papel são capazes de comprovar que a imagem também é texto. E, há autores experimentais que se utilizam de complexas técnicas artísticas para elaborar livros atrativos em contexto de articulações convencionais. Os autores de livros infantis têm as mais variadas perspectivas sobre a inserção da criança e a qualidade da infância. Por exemplo, há autores conservadores que apresentam livros para construção da infância sem inquietudes; autores que retratam contextos sociais que dizem respeito à parcela minoritária da população, a classe média e seus valores estéticos, éticos e morais. Livros onde é comum a inexistência de mãe e pai; autores preocupados com uma literatura infantil crítica e que argumente com o mundo, com a luta pela sobrevivência introduzindo os mistérios da sociedade contemporânea; autores apoiados em estereótipos de comportamento e expectativas de sucesso; autores que vestem as personagens de ingenuidade com trajeto intersubjetivo definido; autores que trabalham com emoções verdadeiras, superando dificuldades com delicadeza; autores que manipulam atitudes duvidosas e asseguram no curso do texto, supostas boas intenções; autores que articulam sobre o mundo e as posturas com humor e irreverência; autores que falam sobre preconceitos contra experiências de vida e a ideia de não crescer; e preconceitos com visão aberta e imparcial sobre padrões étnicos. A preocupação com o adulto que tem castrada sua imaginação, fantasia e encantamento comum à infância. O adulto de argumentos objetivos, que esqueceu ter sido criança e utiliza o livro infantil para tolher a atitude comum à infância. O escritor precisa reinventar abertamente a língua portuguesa e abrir espaço para as propostas de linguagem da criança. Livros infantis que servem para aplicar castigos à criança nos sonhos e por avisos celestes que servem para tratar os medos e ajudar as crianças a pensar antes que o erro seja cometido. Tais livros servem para manipular as atitudes da criança. O livro infantil deve participar da rotina e ser brinquedo nas mãos das crianças e o adulto tem de passar a observar e viver este lugar fantástico onde a criança é tudo o que o sonho e a fantasia permitir, pois é neste lugar que o infante aprende a lidar com as inseguranças do mundo. O hibridismo que acontece na fragilidade-força veste-se de ponto de discursão para que seja entendido esse pequeno ser que vive a estória do livro no modo de ouvir e contar. O mais importante que é a perda do medo de contar a estória à criança, o que demonstra uma mudança de paradigmas na produção de literatura infantil. Monteiro Lobato representou todo contexto de suas estórias aproveitando aspectos comuns ao lazer e assim tornou tudo que havia de mais chato na escola, na melhor coisa do mundo. Tornou a escola um lugar atraente para criança. Sua obra é completa, circular. Criou a imagem de mundo onde crianças estão criadoras e críticas, irreverentes e amorosas, inventoras da liberdade. Em seus livros os pais não faziam presença, o que facilitava a leitura, pois não haviam personagens castradores e repressores. Personagens que restringem a liberdade, mas que sufocam o estilo, os personagens, a objetividade, o vocabulário, equivoco cometido por muitos outros autores de livros infantis. Mas como as coisas não são perfeitas, encontramos problemas de racialização de personagens na obra de Monteiro Lobato e opiniões classistas, pois este autor sempre compara como ruim ou incapaz, personagens negros ou pobre. Mesmo ante tantos problemas de ordem social relacionadas a seus personagens, Monteiro Lobato acerta ao conceber a Emília (uma personagem feminina) o poder de conduzir a própria vida, atribuindo a esta, características de mulher bem-dotada e bem-sucedida. Monteiro Lobato é considerado indiscutivelmente a referência para tratar de literatura infantil, sendo sempre citado entre os melhores livros, junto com livros que apreciam a identidade nacional, livros que se aproximam do contexto familiar, livros que mimetizem fantasia e realidade; e materiais fantásticos que causem surpresa. Isso é o ouro que tem de ser pescado em meio a uma infinidade de livros que não tem o conteúdo próprios à criança. Livros que até tentam ser atrativos utilizando materiais diferenciados e com conteúdo visual agradável com estórias divertidas. Com relação ao sentimento de tristeza nas estórias infantis, foi notada a afirmação de algumas crianças que nunca leram livro infantil triste, mas tiveram acesso a estórias de terror, crianças que trabalham como adulto, tem alguma enfermidade ou estórias de perda familiar e amigos. Livros chatos com estórias difíceis com conceitos científicos repetitivos. A relatos sobre livros bobos, apesar de algumas crianças não identificarem livros nesse contexto, outras acham bobos livros que repetem enredos de outros livros, livros escolares que parecem falar de coisas que só o professor sabe e ainda são, para piorar a situação, chamadas leituras obrigatórias. As crianças indicam gostar de fabulas, estórias de aventura, aquelas estórias com um enredo misto, tipo aventura/ fabula/ romance/ policial/ suspense/ mistério e tudo que um bom escritor conseguir criar, as crianças apontam sua preferência por livros que falam de atualidades e coisas reais. Para ser uma boa estória precisa ser engraçada, os personagens precisam estar sempre em movimento e em diferentes conflitos, falando de coisas da vida e um pouco de fantasia, humor, variações de ambiente e com coisas da cultura brasileira. A criança tem capacidade crítica, opiniões claras e agudas que se manifestam com a prática da leitura, sabendo expor suas sensações. Sabe da importância da literatura indicada na escola, mas sabe também declarar sua insatisfação com relação a leituras cansativas e repetitivas. Gostam da importância de ler Monteiro Lobato, pois percebem sua importância quando se falam de boas estórias para crianças. Os livros mais interessantes são os livros que tem o rótulo “proibido”, não precisando ser erótico ou pornográfico. As leituras obrigatórias tornam-se cansativas, conhecidas, também, como castigo inteligente. Sobre as biografias, da sabedoria e dos outros espaços ou de como conhecer e conquistar o mundo é uma forma de iniciar a aprendizagem sobre a história mundial, falar de ética, de estética o meio de conectar-se com trajetos de vida e para o jovem leitor um modo de encontrar seu lugar. É intensa a procura por explicações sobre a realidade humana e infinita a quantidade de informações desorganizadas que tentam responder a condição humana. Livros com referências teóricas serão bem-vindas. Logo, a biografia abre as portas para o interesse por história. O interesse na geografia dos locais descritos nos livros, com explicações que o mundo não era tão limitado a realidade experienciada pela criança. E os personagens misturados à história da humanidade;      o erotismo velado, impeditivo das relações de fato. O choro, a emoção, as coisas que marcaram e as coleções. Incrível como os romances geográficos e científicos, ou seja, a ficção cientifica virou realidade, perdendo o mistério e agora chama tecnologia. A literatura juvenil foi marcada por autores que nunca escreveram para jovens. E como é autentica a alegria causada pela lembrança das coleções. Havia critério de escolha e um autodidatismo que fazia valer as leituras proibidas pela escola e mesmo que haja influência familiar, a escolha pessoal é a conquista da qual não se deve abdica. Os critérios de escolha tantas vezes têm influência familiar e mesmo de professores na escola, uma pequena biblioteca na estante de casa, buscas particulares pelos livros que os padres das escolas proibiam. Ser leitor numa família que não tem o habito de ler é um processo difícil. Havia as bibliotecas circulantes que fazem empréstimo de livros. Das revistas e dos contos policiais, estes que compõem um quadro de leituras aleatórias, mas que é o início para muitos leitores. Colocar a literatura em termos de faixa etária parece por muitas vezes limitar a curiosidade natural dos sujeitos, afirmando que literatura infantil é apenas para crianças. É certo que tal afirmação está equivocada. Há de ser compreendido que o jovem tem de ser estimulado a leitura e não é justo para seu desenvolvimento limita-lo. Pois, a caricaturada literatura juvenil não existe. Os jovens querem possibilidades, querem descobrir um caminho, emersos em biografias, relatos de vida, diários, tentam se encontrar em novas geografias, em vidas sofredoras e marginais que subvertem o tempo. São poucos os poetas que publicam livros de poesia direcionados a criança, os contos de fadas deslumbrantes, que contagiem de sentimento seu leitor, estes também estão em falta, pois estamos carentes de bons contadores de estórias. Os textos infantis estão sem graça, não despertam o interesse da criança e não tem mais aquele brilho contagiante. Estão necessários escritores ligados ao urbano para que os novos leitores possam constituir alguma identidade, tanto geográfica quanto biográfica. Todos querem ler estórias interessantes, misteriosas e tornem não apenas o conteúdo, mas o objeto livro uma substância lúdica que acompanhe o jogo das crianças. Os livros infantis estão cheios de conselhos inúteis que servem apenas ao adulto que conta a estória que a criança que a ouve ou lê. As crianças precisam de experiências verdadeiras, que permitam a curiosidade e a imaginação da criança de modo ativo. A criança que dialoga com as importantes possibilidades do mundo. As ilustrações necessitam de dinamicidade que permita a criança utilizar a imaginação, no entanto os livros já estão prontos com tudo imaginado. Tudo pronto. Os livros infantis parecem aulas chatas de amontoados de adultismos. Os adultos precisam lembrar que já foram crianças e necessitam esquecer a suposta importância de dizer coisas.

Considerações para uma literatura mais infantil

É grande a infelicidade com relação a obra de Monteiro Lobato quanto aos relacionamentos étnicos e classe social. É improvável mudar sua relação com tal infelicidade, mesmo que o tempo de sua obra seja tempos extremamente perturbados por uma sociedade patriarcal e ainda com ranços muito fortes de colonialismo. Mas temos que pelo menos atentar para o que há de bom em seu trabalho. O respeito que soube como ninguém aplicar a vicissitude da criança dentro do ambiente escolar, declarando a importância e visão de criança em sociedade. O contexto escolar como espaço de aventuras e mistério.
A literatura infantil que circula hoje no mercado foi criada, escrita, ilustrada, produzida e editada por um adulto para que outro adulto possa comprar. No entanto esse mesmo adulto precisa ser um espelho para a criança, pois não adianta de nada um adulto que não gosta de ler comprar um livro infantil. Dificilmente vai saber o que fazer com este. No máximo vai fazer cobranças descabidas a criança, sobre leitura e escrita.
O livro infantil existe como objeto de consumo que depende do adulto para ser consumido, a criança pouco participa da escolha de sua pretensa leitura. A mediação do livro infantil feito pelo adulto que não lê é em grande parte um processo de desconstrução da criança leitora.
O adulto escolhe livros que seguem perseguições ideológicas, leituras comprometidas com moralismos e didática que castra a liberdade de pensamento, uma literatura que não permite a recriação de texto e imagem. O livro configura-se numa totalidade de texto, ilustração e projeto gráfico feito para o adulto consumidor e raramente para a criança leitor em formação.
É notório que não existe literatura de qualidade, o que há é o leitor apaixonado pela leitura que se propõe fazer. Como uma pintura apreciada por dez pessoas, imaginemos que duas não sabem o que dizer a respeito, uma não quis pensar a respeito, quatro se forçaram a dizer que gostaram e compreenderam e três voltam todos os dias a galeria e cada vez que voltam, riem, choram, gargalham, ficam com raiva e sempre acompanhadas por alguém diferente. Do mesmo modo é a literatura infantil, se bem escrita, pensada e ilustrada, torna-se um objeto simbólico que alimentará a intersubjetividade da criança e do adulto.
A literatura feita para crianças tem muito pouco de infantil, por esse motivo precisa ser melhor pensada. O adulto que cria a obra tem que compreender que esta é para criança e não para adulto. O adulto que consome literatura infantil deveria permitir que a criança faça sua escolha ao adquirir o livro. A criança tem sua própria poética e o manejo das palavras feito pelo escritor e o manejo da ilustração tem que pensar no mundo que a criança lê ao abrir os olhos, também, quando fecha. Os autores têm de parar de escrever livros onde se propõem a medida de toda moral, educação e cultura possível. O argumento do autor tem de levar a criança a imaginar e não a fazer conexões de nomes e datas, as ilustrações precisam fazer leitura do texto.

II CAPÍTULO – DISCOS

O material objeto da autora são agora os discos produzidos para o público infantil. Considerações para as boas produções, excelentes cantores e compositores, mas nenhuma relação com criança. Uma confusão gigantesca na concordância verbal, problemas nas falas das personagens e em suas formas de expressar. Não há preparo para as crianças atores, como: exercícios de teatro ou vocalização. As crianças atores falam como adultos ou falam de modo infantilizado demais. Por falta de preparo teatral as crianças atores não tem expressão, possuem entonação cansativos. Não sabem expressar raiva, tristeza, alegria e mesmo felicidade sem parecer forçado, ou seja, são extremamente falsas, estereotipadas e inexpressivas. Uma pobreza muito grande na música, pois a música geralmente não tem relação com a proposta da estória. As vozes não têm relação com as personagens, não há humor, e o universo mágico não acontece. A narrativa tenta a todo momento fazer adjetivações de comportamentos, ou seja, um personagem é dito vilão pelo narrador, mas a interpretação não passa essa mensagem. Os produtores de discos infantis perdem a chance de seus personagens serem identificados por uma trilha sonora e introduzir personagens com uma identidade instrumental ou musical. O que se tem são discos chatos e mal cantados que não envolve, não inventa, infindável e cheio de comentários introdutórios destituídos de qualquer noção de humor. Discos que fazem odes à auto-repressão, ao servilismo, à obsessão pela limpeza, às punições de toda ordem e natureza, com repetições desnecessárias de um mesmo conselho. É espantoso aquilo que tem sido apontado como livro infantil. Conteúdos lineares, simplistas, repetitivos, pasteurizados, maniqueístas que termina por diluir conteúdos significativos e importantes. A elaboração gráfica das capas é bagunçada e sem qualidade estética, as fichas técnicas não informam coisa alguma: nem na proposta, nem no texto e principalmente nas falas. As crianças não sabem dizer o que mais desqualifica um discos como infantil, mas sabem informar que não gostam. Os discos infantis precisam de compositores e cantores que tenham preparo para atender as exigências do público infantil. Os produtores precisam parar de produzir versões de estórias que já existem, pois muitas dessas versões estragam a estória original. Os discos precisam ser produzidos com o mesmo zelo oferecido aos adultos e incorporando vários ritmos, tocados por bons músicos. Músicas que pessoas de todas as idades possam ouvir e brincar. Trazer de volta as cantigas de roda, mas com qualidade, diferente desse material que vem sendo apresentado e diluído, menosprezado e cantado de qualquer jeito. É importante pensar discos infantis em função da ludicidade crítica e reflexiva própria à criança.

Considerações sobre as novas mídias para crianças

 O livro “O estranho mundo que se mostra às crianças” da professora Fanny Abramovich pode ser considerado um material ultrapassado quando lido com olhos voltados a produção de LP, MP e Fitas Cassetes, pois são mídias que não são mais utilizados na sociedade digital. No entanto, a ótica de produção de produtos de entretenimento infantil, essa permanece a mesma. Produtos de péssima qualidade e cheio de adultismos desnecessários.
Com exceção de alguns trabalhos em DVD, como: O Xuxa só para baixinho 1, 2 e 3 que tem todo um cuidado com o imaginário infantil, grande parte dos atores são pedagogos, psicólogos e estudantes universitários nas respectivas áreas; O Patati e o Patata: Seus melhores amigos, que tem, também, um cuidado valioso com relação a criança; Peppa Pig, uma porquinha que vive com sua mãe, seu pai e seu irmão Jorge. Os autores e diretores de Peppa fazem uma desleitura da sociedade atual tentando desmistificar a ótica patriarcal, pois a mãe e o papai trabalham, mas as cenas sempre dão ênfase no papai pig trabalhando na cozinha. A mentalidade da porquinha possui o egocentrismo próprio da criança; Temos Dora Aventureira que é uma menina que possui uma linguagem pautada na lógica, podemos analisar as ações de Dora dentro do diagrama de Venn. No entanto, com a expansão da internet temos uma infinidade de programas inadequados para crianças circulando livremente na internet.
“A aproximação da criança com produtos deve acontecer como a aproximação com os brinquedos e sempre mediado por um ambiente saudável. As atuais mídias são um objeto fabuloso, cheio de informações, de fantasias, de mistérios e de imagens. Deve haver cuidado com o meio que influi nessas mídias, ou seja, quem as produz.

III CAPÍTULO – TEATRO INFANTIL

É fácil perceber que as pessoas que se propõem a escrever teatro para crianças não tem qualquer noção de teatro, de educação e muito menos de criança. Peças vestidas de preconceitos, rispidez, personagens moralistas e a grosseria sendo tida como elemento de humor, filosofia de péssima qualidade e um palavreado adulto com pouca movimentação dos personagens e os mesmos com uma vida cansativa. As relações familiares são idealizadas e cheios de romantismo, num texto indicado para elenco infantil, as relações impossíveis entre animais e crianças aliada a ideia de lugar mágico. As relações afetivas perfeitas entre pais e filhos não deixando de saborear a ludicidade do que deveria ser essencial ao teatro infantil. Relações sempre cordiais com um leve jogo de humor sem esquecer a apreciação pelos conceitos afirmadores do teatro. A iniciação da criança nas relações amorosas, diálogos que avivem seu interesse sem esquecer a lógica irrefutável, evitando a marginalização infantil, deixando claro questões sociais e raciais. Uma iniciação sexual saudável que atente para a beleza das imagens e o domínio da norma culta representado pelo raciocínio claro e lúcido. Considerações que podem constituir um personagem infantil sem autodepreciações ou autodesesperações. O teatro tem uma relação estimulante com o estudo, professores podem se modernizar e a aprendizagem pode ser alterada. No teatro a companhia feminina pode ser solicitada sem misoginismos, adaptada a uma linguagem infantil que acontece em situações de vivência próprias a criança, estimulando um novo perfil social e vocabular indiscutível nos redutos homoafetivos. Preocupados em dar uma informação correta que compreenda o universo infantil. Mas o importante mesmo é fazer isso acontecer dentro do teatro de maneira a agradar a criança que faz teatro e a criança que assiste. O teatro infantil merece uma leitura do universo infantil que atentem para a linguagem e para as imagens que parecem sempre muito pesadas e ao mesmo tempo tão bem pensadas para a compreensão da criança. Introduzir a criança no mundo da poesia. Evitar os pedagogismos na hora de construir um personagem, respeitando a cultura popular e sempre respeitando a indicações feitas pela própria criança e sua postura enquanto ator. É fundamental no teatro infantil a reação do público, este precisa ser espontâneo e estabelecer relações inesperadas e imprevisíveis. O teatro é um espaço em péssimas condições e o teatro infantil caminha de mãos dadas com a precariedade. O teatro infantil possui produções que passam o tempo da peça punindo crianças por serem curiosas, gratifica-se a plateia e pensa-se o tempo inteiro no envolvimento emocional. É necessário estimular a livre expressão da criança, preocupando-se com o teatro infantil e com o universo da criança intermediados pela diluição, mistura e total confusão. Os autores confundem constantemente síntese e simplismo. A imaginação necessita fluir e o lúdico acontecer de modo original, a magia envolver e a ação deixar de ser verbal. O teatro tem necessidade de um teatro infantil de criança e da relação entre os dois. O teatro infantil tem de ter consciência de que a realidade do campo e da cidade são totalmente diferentes e se essa diferença não for pensada é impossível encontrar a relação emocional da criança com o espetáculo. As apresentações teatrais possuem conotações sexistas onde a mulher está sempre ligada a personagens como: criadas, mães, domesticas, secretárias, professoras, fofoqueiras e dondocas ricas. Enquanto isso os homens exercem funções de destaque. A criação de personagens é muito pobre, dificilmente surgem personagens novos, há pouca ousadia e o que tem mesmo são repetições esquemáticas de personagens conhecidos. Os elementos da natureza são muito populares, no entanto elementos urbanos são inexistentes. O que afasta o teatro do dia-a-dia da criança, ou seja, pouca simbologia e muito saudosismo bucólico. Não há objetos afetivos, como não há os de construção, assim como os de expressão. Mas, há uma recusa em colocar em cena os problemas com os quais a criança se depara e convive, ou aqueles com significação simbólica profunda, cujo conteúdo sempre foi importante para o ser humano. Inquietudes que surgem dinamicamente e se percebe a importância de resgatar a memória do povo, de resgatar o humor e a lágrima; sobretudo, resgatar a própria criança do adulto que faz teatro para ela. O importante do teatro infantil é o preparo das crianças, com as crianças e para as crianças, no entanto, o teatro infantil parece sempre querer agradar o adulto que leva a criança ao teatro. A ideia de que o personagem só cresce quando faz escolhas, onde muitas levam a solução mágica. O personagem que não se constrói e constrói nada, assim não cresce. Esses conceitos são tão atrasados quanto o próprio contexto oferecido a criança, ideias de um século que já passou. Época onde prevaleciam altos índices de preconceito, mas no teatro, por incrível que pareça, esses preconceitos são sexistas e profissionais. O teatro infantil passa por duas dificuldades que são comuns a qualquer grupo. O primeiro é a baixa rentabilidade do teatro e o segundo, a falta de incentivo para a melhoria na qualidade dos espetáculos e este segundo necessita de cursos ministrados por especialistas na área do teatro. Pessoas que tenham conhecimento prático sobre a lógica da criança. O teatro infantil como está sendo feito é cheio da lógica do adulto que escreve. O começo, meio e o fim de uma estória, no entanto a criança desconstrói toda essa lógica. Portanto, escrever para crianças é lidar com uma imaginação verdadeiramente livre e que se não for bem trabalhada a criança pode acabar por ser castrada de sua habilidade criativa, a imaginação. A criança em cena ela está emocionada, por esse motivo a necessidade de ser dirigida por um especialista para poder ser jogada sobre a criança. Pois o teatro é a ação cênica que ocorre e não o espaço teatral. As crianças constroem um jogo de improviso dramático que é muito difícil de ser didatizado, mas quando pensado para o teatro infantil parece não haver necessidade de pesquisas muito profundas na área. Cada criança vê, apreende, percebe a sua maneira a realidade do ambiente. A criança tem outra sensação sobre tempo e espaço; mas a sociedade contemporânea tem tirado isso dela. É incomodo o adulto ficar junto a criança incitando respostas prontas quando o que se pretende na criança que faz teatro é demonstra que o teatro é mais próximo de sua consciência, o teatro não é um universo adulto ou de adultismos. O teatro infantil brasileiro é um leque de péssimos espetáculos, com dramaturgias que não dizem nada e que não estimulam a nenhum comportamento vital da criança, então, há necessidade de promover mais cursos do que concursos, seminários, laboratórios de dramaturgia, experimentação direta com a criança, com a possibilidade de questionar, reinventar e reelaborar suas ações e de seus personagens.

Considerações para que a criança desfrute da Merda

A aproximação da criança no teatro deve acontecer como a aproximação com os brinquedos, pois esse é um ambiente que influi. O teatro é um objeto fabuloso, cheio de informações, de fantasias, de mistérios e de imagens. Para a criança, pode tornar-se uma representação, uma parte do mundo, levando-a a viver experiências do seu mundo externo e interno. A cena é capaz de formar a criança que aprende com o que lê, com o que escuta. Formar o cidadão que pode ler, escrever, criticar de modo reflexivo.
A criança precisa aprender que existe um lugar reservado para ler e ouvir histórias, assim como vive-las, lugar onde os livros e suas estórias ganham vida. A criança é a grande estrela do teatro infantil, que deve receber um tratamento especial. A vivência no coletivo de teatro requer uma organização que facilita o aproveitamento dos aprendizados. O teatro chega à criança por iniciativa do adulto e o jogo cênico ilustra e ocupa um lugar de relevo no mundo da criança.
O teatro infantil é um espaço sem roteiros escritos para criança seguir, o jogo no teatro infantil tem que seguir o ritmo e potencial da criança e deve incluir nas cenas situações do dia-a-dia, relações familiares, descoberta de animais, de lugares e de situações novas. O teatro infantil não acolhe apenas o belo e o singelo, mas também trata de explorar a estética do que é feio, do que é terrível, mostrar-lhes a possibilidade de transformação e mudança. O bebê e a criança pequena brincam para conhecer o mundo e o funcionamento das coisas, o teatro é a utilização desse momento como exercício para a vida.
O teatro tem todo um encantamento para os pequenos: cheiro, cor, textura, gosto, faz ruído, estimula a exploração dos sentidos e registra a palavra, a história, o que garante o valor das experiências e ainda pode classificar o bom do mau e o bem do mal. A vivência pelas vias do imaginário. Brincar com as crianças depois da leitura da obra, aproximar a criança da Arte é fundamental no seu processo de aprendizagem na escola e na sua relação com as produções humanas. Logo, o adulto tem um papel importante na educação dos pequenos e no seu modo de estar em cena, pois, aquilo que o adulto faz é sempre o maior exemplo para a criança.

#arteeducação
#maickpinheiro

REFERÊNCIA

ABRAMOVICH, Fanny. O estranho mundo que se mostra às crianças. São Paulo: Summus, 1983

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

18 de MAIO - AÇÃO DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES


Para fortalecer a bandeira de luta dessa data tão importante apresento o relatório da AÇÃO DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES, que ocorreu no dia Belém, 18 de Maio de 2018, organizada pelos estudantes do Programa de Educação Tutorial Interdisciplinar/ Conexões de Saberes que tem como membros: SORAYA FERREIRA DA SILVA, REGIANE AMARAL CHERMONT, SAMARA GEMAQUE DA SILVA, LAYSE INES MONTEIRO MACIEL, MAICK CRISTIAN VALINO PINHEIRO, JAQUELINE BARROS MONTE, SILVIO SARMENTO ARRUDA, JENYSON KLEWER COSTA DUTRA, CARLOS ANDREI DA SILVA RIBEIRO, ROMARIO DA ROCHA SOUSA, LUCIANE CECILIA CARVALHO TEIXEIRA, BRENNA, NAYARA MONTEIRO SILVA, assim como o estudante voluntário ALAN JONES CORREA SANTOS e como Tutor o Prof. Dr. GENYLTON ODILON RÊGO DA ROCHA.
O evento é alusivo ao Dia Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes e está compondo a série de eventos referentes ao “Maio Laranja”. O principal objetivo do evento foi de participar ativamente com a rede de proteção para juntos enfrentar a problemática da violência sexual contra crianças e adolescentes. Tivemos como público alvo profissionais da área da infância e adolescência, estudantes da educação básica acompanhados de seus Professores, estudantes de graduação, além de pesquisadores que estudam o fenômeno da violência sexual contra crianças e adolescentes. Membros da sociedade civil organizada.
Durante a ação tivemos a possibilidade de apresentar uma visão panorâmica do fenômeno da Violência sexual contra crianças e adolescentes no estado do Pará. Apresentação das problemáticas mais significativas da contemporaneidade, enfatizando a importância de averiguação de novas manifestações, principalmente no contexto escolar. A Doutrina da Proteção Integral. A Promoção, Defesa e Monitoramento de Direitos de Crianças e Adolescentes. O Papel do Conselho tutelar em casos referentes ao ambiente escolar. O papel da rede de proteção para promoção de Ações que garantam Direitos Sexuais e reprodutivos de crianças e adolescentes, garantindo a descriminalização da sexualidade na sociedade da cibercomunicação.
O evento iniciou com as palavras da Mestranda WELMA BARBOSA MAFRA, em seguida a estudante do Grupo PET Interdisciplinar/ Conexões de Saberes SORAYA FERREIRA DA SILVA fez a composição da mesa de debate com a Profª. Drª MILENE MARIA XAVIER VELOSO e a Conselheira Tutelar JERUZA HONORATO DE ALMEIDA para iniciar as discussões do PAINEL 1 - “ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: O PAPEL DAS REDES DE PROTEÇÃO NA GARANTIA DE DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS”, após a apresentação dos convidados foi feito uma rodada de perguntas.
No horário da tarde a conferência de abertura foi feita pela Mestranda NAYARA CHAVES DE LIMA, em seguida foram chamados pela estudante do Grupo PET Interdisciplinar/ Conexões de Saberes LAYSE INES MONTEIRO MACIEL os Membros da Comissão de Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/PA PATRÍCIA REGINA COELHO PINTO e MARCELO DA SILVA CONCEIÇÃO que compuseram a mesa de debate do PAINEL 2 - “O PAPEL DA ESCOLA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES E NA GARANTIA DE RECONHECIMENTO DE DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS”, ao final do evento foi feita uma rodada de perguntas aos convidados. A estudante do PET Interdisciplinar LAYSE INES MONTEIRO MACIEL pediu aos convidados que fizessem suas considerações finais. E foi pedido aos participantes que entregassem suas contribuições para transcrição da Carta que será levada à Reitoria e orientados a assinar o abaixo-assinado.

MESTRANDA WELMA BARBOSA MAFRA

Fala da alegria de participar do evento e explica sobre o GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS SOBRE CURRÍCULO E FORMAÇÃO DE PROFESSORES NA PERSPECTIVA DA INCLUSÃO - INCLUDERE que, também, é coordenado pelo Prof. Dr. GENYLTON ODILON RÊGO DA ROCHA que faz pesquisa em educação inclusiva e discute temáticas de grande importância no meio social e acadêmico. O INCLUDERE trabalha, também sobre questões étnico raciais, trabalho infantil, violência sexual contra crianças e adolescentes, crimes contra pessoas LGBT, entre outros. Welma agradece pelo convite. Começa a falar sobre abuso sexual e violência sexual contra crianças e adolescentes. Atos lesivos ao corpo e a mente da criança. A compreensão da criança como pessoa em situação peculiar de desenvolvimento. Comenta sobre a culpabilização da criança e vitimização do adulto. A violência sexual é um fenômeno e se desdobra em abuso sexual e exploração sexual.
Na exploração sexual a criança é utilizada como objeto de deleite sexual por remuneração, ou alimento, ou roupa. As crianças e adolescentes são tratados como mercadoria. Explica sobre o trabalho da Polícia Rodoviária Federal que tem feito inumaras ações de enfrentamento nas estradas, principalmente nos postos de combustíveis, próximos a motéis de beira de estrada. Explica que o abuso sexual é quando a criança ou adolescente é utilizado para estimulação sexual. Quando o sujeito adulto apresenta conteúdos pornográficos, tentando estimular a criança à prática sexual. O adulto seduz a criança ou adolescente, romantiza o abuso. Na realidade das crianças e adolescentes estas são as vítimas, mas são apontadas como as principais responsáveis pelos abusos.
Fala das situações de miséria que contribuem para que crianças e adolescentes passem por situações de violência e abuso sexual. Welma apresenta estatísticas da violência e comenta sobre a falta de acesso de algumas pessoas, principalmente nas áreas rurais. Comenta sobre as circulações de pornografia infantil e pedofilia nas Redes Sociais.
Fala da importância de enfrentarmos o problema e chama as pessoas para participar de campanhas e compartilhar informações. Faz comentários sobre o acesso a informação e como isso pode preservar a dignidade de crianças e adolescentes e fala da importância da apresentação do tema a sociedade com os dizeres: mobilizar, orientar e articular.
A importância de informar os profissionais que tem contato com crianças e adolescentes, isso faz referência ao contexto escolar. Os professores precisam estar preparados para acolher as diversas situações de violência que se concentram no contexto escolar. Prevenir, também, por meio de formação de profissionais das demais áreas. Fala da importância de apoio e renda das famílias mediados por políticas públicas que possam ampara-las e com isso as crianças e adolescentes não passassem por situações vexatórias.
Welma comenta sobre a convenção internacional dos direitos da criança que aconteceu na década de 90. Fala sobre os princípios que podem orientar as melhores condições de respeito. A criança sujeito de direitos. O Estatuto da Criança e do Adolescente e seus dispositivos reguladores.
As organizações da sociedade civil devem se articular para promoção, defesa e monitoramento de defesa de direitos de crianças e adolescentes. A rede de proteção têm agendas que definem e dinamizam as demandas sobre violências contra crianças e adolescentes. Mas informa também que isso é uma tarefa da sociedade como todo e não apenas de pequenos grupos organizados.
Informa da importância da participação da escola na rede e como a formação dos educadores pode facilitar as práticas de enfrentamento â violência. A importância de procurar os CRAS e CRESS. Atentar para crianças com doenças sexualmente transmissíveis. Fala da desesperança vivida pela sociedade e como isso se agrava em crianças vítimas de abuso ou exploração.

PAINEL 1 - “ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES: O PAPEL DAS REDES DE PROTEÇÃO NA GARANTIA DE DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS”

Profª. Drª Milene Maria Xavier Veloso

A Drª Milene inicia sua fala fazendo comentários sobre a importância do evento. E comenta sobre provocar o debate nas instituições. Faz comentários relevantes sobre o significado do dia 18 de Maio. E comenta, também, sobre o dia 17 de Maio. Fala dos problemas de violência e a questão que não cala. Por que produzimos tanta violência? Comenta sobre a falta de conhecimento que definem leis e normas, fala do recorte necessário para fundamentação de dispositivos legais que possam realmente amparar vítimas de violência. Comenta sobre o que aconteceu no dia 18 de maio de 1973 que mobilizou o Brasil em torno da temática, estava falando do caso ARACELI CABRERA SÁNCHEZ CRESPO, uma criança brasileira assassinada violentamente nesta data por PAULO CONSTANTEEN HELAL e DANTE MICHELINI. A menina teve o corpo encontrado dias depois, totalmente desfigurado por ácido e marcado por extrema violência e abuso sexual. Posteriormente, o Congresso Nacional instituiu o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes na data da morte de Araceli, o que culminou na criação do Plano Nacional de enfrentamento.
Apresenta recortes de seu grupo de pesquisa sobre o fluxo das violências notificadas. Ressalta a importância do movimento de mulheres na luta de direitos humanos e direitos sexuais. Afirma que Direitos sexuais não é só o combate a violência: direito a uma vida plena, convivência familiar, lazer, educação. E direitos reprodutivos não é apenas sexo, tem uma serie de outros fatores que implicam na sexualidade. Há de se preconizar a criança como prioridade absoluta, no entanto isso é o que não vem acontecendo.
Faz observações sobre as redes sociais e como os direitos humanos tomaram uma conotação negativa. A distorção do que se tem problematizado enquanto direitos humanos, a importância da contextualização histórica e as articulações da rede de proteção. Atualmente há necessidade de retomar as discussões sobre as redes de enfrentamento, pois estas vem sendo criminalizadas.
Aponta a violência como expressão da violação de direitos, um contexto multidimensional que tem raízes históricas, econômicas, culturais, sociais e psicológicas e a expressão das desigualdades econômicas e sociais que é machista, homofóbica, classista, adultocentrica, racista e extremamente violenta, principalmente com as populações excluídas do acesso aos direitos sociais.
Afirma que em 2009 foi implantado um sistema de monitoramento de violências contra crianças e adolescentes. Mostra dados que diz ser epidemiológico o fato de violência sexual contra crianças e adolescentes. Apresenta estatísticas referentes a questão no Brasil. Comenta sobre as questões de gênero e seu marcador na violência sexual contra crianças e adolescentes, essa é uma questão que apresenta o machismo como principal fator do abuso. Neste contexto a criança é a mais vulnerável na relação adultocentrica machista.
Apresenta as portarias referentes ao sistema de notificação. E apresenta o contexto de denuncia compulsória sobre todas as formas de violência já classificadas. Apresenta resultados de sua pesquisa. Comenta que as principais vítimas de abuso sexual são meninas que estão na faixa etária de 11 a 14 anos. No entanto há também notificações de abuso em crianças de 0 a 2 anos. Comenta que esses são os casos notificados, pois ainda há os casos invisibilizados. Comenta que a violência contra meninos é muito mais difícil de notificar. Os casos de meninos notificados estão na faixa etária de 0 a 6 anos. Os dados sugerem que quanto menor a criança mais vulnerável ela está para sofrer a violência.
Fala que muitos casos são de crianças com vínculos com o agressor (professores, vizinhos, padrasto, pais, tios, primos, etc.). Faz uma afirmação de extrema importância “nem todo abusador é Pedófilo”. Fala sobre os serviços oferecidos pelo PROPAZ que faz pericia, atendimento médico e é avaliada a situação da criança para que seja encaminhada para o Delegado de Polícia que irá notificar o Ministério Público.
Comenta sobre a potencialização dos atendimentos na área da saúde. Revela que um dado é inquietante, o ciclo de vida do agressor, muitos são crianças. As notificações são de municípios distantes de Belém. Comenta sobre a importância de pensar esse lugar simbólico do masculino e a barreira que envolve a relação consensual e a relação forçada. Comenta o que muitos autores definem como cultura do estupro. Principalmente o que refere a mulher como objeto sexual. Informa sobre as dificuldades para iniciar a discussão na escola e como os professores se afastam da discussão. Considerações de agradecimento.

Conselheira Tutelar Jeruza Honorato de Almeida

Conselheira Tutelar Jeruza Honorato de Almeida do Conselho tutelar III. Fala sobre a intervenção nas escolas e como infelizmente as escolas parecem não ter interesse e como esse desinteresse é reforçado pelas mídias televisivas. Fala sobre o artigo 32 da LDB, a escola é obrigada a trabalhar os direitos de crianças e adolescentes nas disciplinas. Questiona quantas escolas estão trabalhando a temática do enfrentamento de violência sexual contra crianças e adolescentes. Fala sobre o que é o Conselho Tutelar, quais suas motivações e como funciona sua autonomia.
Explica que o conselho está encarregado pela sociedade de atuar e que este é um órgão colegiado composto por cinco membros. Suas atribuições são confundidas pela maneira como a escola solicita seu auxílio.
Atender e aconselhar pais e responsáveis, atender as crianças e adolescentes, promover suas decisões por meio de requisição, representar frente a autoridades casos de omissão ou que constitua infração administrativa. Expedir notificações com informações das denúncias, requisitar certidão de nascimento em casos excepcionais, acessar o poder executivo, representar em nome da pessoa ou da família, representar ao ministério público, promover e incentivar, na comunidade e nos grupos profissionais, ações de divulgação e treinamento para o reconhecimento de sintomas de maus-tratos em crianças e adolescentes.
A atuação do conselho tutelar no enfrentamento a violência sexual contra crianças e adolescentes, consta na lei nº 8.069/90 no artigo 13 e 56 que impõe a profissionais de saúde e da educação a obrigação de comunicar ao conselho tutelar os casos de suspeitas ou confirmação de violências praticadas contra crianças e adolescentes. Comenta sobre os casos denunciados no disk 100.
As informações notificadas possuem informações equivocadas, um exemplo é uma notificação onde a informação do endereço dizia: “Rua Nova do lado da casa Verde”. Há necessidade de confirmação da procedência da denúncia. Fala sobre a aplicação de medidas protetivas e as formas de acompanhamento das notificações. Fala sobre as instituições sociais que são fundamentais para o enfrentamento. Faz referencia ao artigo 4 do estatuto da criança e do adolescente. Comenta que o dever é de todos e que não há uma ordem para a responsabilidade.
As notificações em rede são muito importantes para articulação do conselho tutelar. As principais portas de acesso a justiça são o conselho tutelar, polícia (civil, militar, federal), disque 100, Ministério Público, etc. Comenta sobre o artigo 5º do ECA, art.18, art. 70 que implica que é dever de todos.

Considerações do Público participante

Rosilene Miranda, educadora da FASEPA. Trabalha com adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas em regime fechado. Centro de recuperação feminino. Faz relato de casos que atende de adolescentes que sofreram violências. Grande parte das meninas que atende são crianças que iniciaram sua vida com abuso sexual ou exploração. Muitas das meninas apresentam histórias de favores sexuais por alimentos, roupas e pequenos presentes. Fala que são adolescentes com carência financeira e principalmente emocional. Faz comentários que grande parte das meninas são oriundas de áreas do interior (municípios distantes). Fala da obrigação da sociedade em está esclarecendo sobre a problemática da violência contra crianças e adolescentes. Gostaria de saber se há um tempo de notificação ou se essa notificação pode espirar?
Luciano aluno de graduação da Ufpa. Comenta sobre suas experiências, comenta que presenciou atos de abuso. Descobriu que a criança estava sendo abusada por um adolescente de 16 anos. Fala sobre a importância de está observando as mudanças de comportamento das crianças. Como lidar? Fala que não existe no seu bairro um trabalho de orientação. O problema é tratado como “normal”. Comenta sobre outra situação onde uma mãe e um pai não respeitam o espaço da criança para poder manter relações sexuais e fazem isso na frente da mesma.
Thais Mercês mestranda em Educação Básica. Comenta sobre a importância do enfrentamento da violência e seus múltiplos motivos para acontecer. Fala sobre a invisibilização do problema nas escolas e principalmente a carência de formação principalmente nos cursos de licenciatura.
Cleber Amorim Professor de História e Especialista no Ensino de História. Faz relato sobre sua experiência com pessoas que deveriam ensinar sobre o ECA, mas que estão desconhecedores do conteúdo deste. Fala que ouve comentários sobre o estatuto, demonizando sua validade enquanto dispositivo de defesa de direitos. Trouxe com ele seus alunos do Colégio Fantástico. Faz o seguinte questionamento: É critério para candidatura do cargo de conselheiro tutelar o conhecimento do Estatuto da criança e do adolescente?
Edimar aluno de artes visuais. Gostaria de saber que medidas tomar no caso de violência sexual contra crianças ou adolescentes cometidos por criança ou adolescente?

RESPOSTA: Profª. Drª Milene Maria Xavier Veloso

Quando identificamos uma situação de abuso adolescente-criança. São vários fluxos: atendimento, defesa e responsabilização. Mas deve-se priorizar o acolhimento da vítima. Encaminhar ao conselho tutelar, PROPAZ onde será feita a escuta e coleta por meio de atendimento médico para averiguar sobre as profilaxias relativas a saúde.
Não existe prazo, a família precisa se encaminhar a coordenação do PROPAZ. E será encaminhada para acompanhamento jurídico e psicológico. O delegado de polícia é obrigado a dar prosseguimento a investigação. A vítima será atendida assim como o adolescente agressor. O agressor quando é liberado não passa por acompanhamento pós cumprimento das medidas. É necessário que haja reconhecimento de como a família vivência a sexualidade da criança e do adolescente e sua própria sexualidade. Por esse motivo a importância do aconselhamento para que tenham relações apenas quando as crianças não estiverem em casa.

RESPOSTA: Conselheira Tutelar Jeruza Honorato de Almeida

Um dos desafios do conselho tutelar é sensibilizar a família para acompanhar as situações denunciadas. Por medo da exposição temos mães que preferem resolver a situação dentro da igreja. Há situação de crianças que a mãe muda de endereço por orientação do agressor. O conselho tutelar precisa não perder de vista as crianças vítimas para que estas não sejam revitimizadas. No entanto isso é extremamente difícil.
Temos problemas relacionados ao castigo físico e o apoio que algumas escolas atribuem a esse tipo de violência. Agora sobre os critérios para ser conselheiro tutelar. Informa que o estatuto não aponta critérios de formação para atuação como conselheiro tutelar. Fala sobre questões políticas que indicam o conselheiro (conselheiros ligados a grupos políticos).

2. AÇÃO DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES

O evento reiniciou às 14 horas 45 minutos, com a considerações iniciais da Estudante do Programa de Educação Tutorial Interdisciplinar/ Conexões de Saberes LAYSE INES MONTEIRO MACIEL que chamou para conferência de abertura do PAINEL 2 a Mestranda Nayara Chaves de Lima e apresenta os Membros da CDCA- OAB/PA Adv. Patrícia Regina Coelho Pinto e o Adv. Marcelo da Silva Conceição que compuseram a mesa da tarde.

MESTRANDA NAYARA CHAVES DE LIMA

Mestranda Nayara Chaves de Lima dá inicio a sua fala questionando sobre que escola é essa que temos atualmente? Comenta sobre mensagem de whattzap que muitos acharam “lindo”. As pessoas compartilharam, mas sem perceber da condição reducionista da escola. Como se escola fosse o local que se obtivesse apenas conhecimento cientifico.
A escola pode muito mais que reproduzir conteúdo, explica que a escola pode ser mais que uma escola bancária, pois, quando a escola foi criada e a educação saiu do poder religioso essa assumiu a educação como forma de preparo para o mercado de trabalho.
Comenta que durante seu período de graduação em nenhum momento foi preparada para lidar com a vida dos alunos. Comenta sobre autores que não estão preocupados com a vivência dos alunos e pensam na educação como um todo.
A violência sexual e outros problemas reverberam na escola. Quando somos preparados podemos lidar com a problemática. Comenta sobre a escola que prepara o aluno para a vida e não apenas para avaliações nacionais e aponta que os dados de violência sexual são alarmantes. Faz apresentação de estatísticas que problematizam principalmente na área da educação.
Mas, quais são os limites e possibilidades da escola no enfrentamento a violência sexual contra crianças e adolescentes? A escola é local de prevenção com projetos. Fala do acesso a programas sociais. Fala sobre a garantia de acesso as informações para que a criança não seja culpabilizada pelo abuso. Faz relato de crianças que dão alerta de fuga do lar chegando muito cedo na escola. Então afirma que é fundamental que a escola encaminhe os casos para rede de enfrentamento. No entanto, professores, diretores e coordenadores tentam resolver as situações dentro da própria escola.
Quando a denúncia é feita as crianças muito facilmente são afastadas da escola pelo próprio abusador. A escola precisa entender seu papel como sujeito integrado para atuar com as entidades da sociedade civil. Fala sobre a importância da escola como principal agente de diálogo para atuar no enfrentamento. Fala sobre os traumas causadas na criança e como isso causa evasão escolar. Os casos podem ser tanto aluno-aluno como professor-aluno ou aluno-escola.
Comenta sobre a falta de informação comum no ambiente escolar e como os professores se sentem desprotegidos no espaço geográfico da escola. Uma questão fundamental é a discussão sobre sexualidade. As pessoas acreditam que discutir sexualidade na escola é incentivar o aluno a fazer sexo, quando a realidade é muito diferente, a sexualidade é o conhecimento de si, conhecimento e respeito ao outro e como eu ou o outro se sente.
Explica sobre as violências intrafamiliares veladas por mitos como o Boto. Fala sobre casos de pais que se sentem no direito de ter a primeira relação sexual com filhos e filhas. As relações se perpetuam, pois, a avó viveu a situação, a mãe e agora a filha. É necessário que esse ciclo seja rompido. É necessário acabar com o discurso de “normatividade”.
Há necessidade de se criar uma cultura de enfrentamento a violência. Comenta sobre a necessidade de apoio dos órgãos públicos e das entidades da sociedade civil organizada. Explica sobre o guia escolar que foi criado para tratar os problemas de violência na escola, mas a escola desconhece esses recursos. Comenta que com o atual governo as políticas públicas foram canceladas e agora perdemos o compromisso e principalmente o compromisso por parte dos órgãos públicos.
Há necessidade de trabalho de qualidade na rede. Há escolas que tratam a problemática como uma pauta sem desafios. O enfrentamento não tem uma receita. Precisamos entender como ajudar e caminhar nesse sentido.

PAINEL 2 - “O PAPEL DA ESCOLA NA PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA SEXUAL CONTRA CRIANÇAS E ADOLESCENTES E NA GARANTIA DE RECONHECIMENTO DE DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS”

Membro da Comissão de Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/PA Adv. Patrícia Regina Coelho Pinto

Faz saudação ao público. Comenta sobre os eventos relativos a 18 de Maio que estão acontecendo em toda rede. Comenta que falar sobre sexo é tabu. Fala sobre seu trabalho de psicoterapia familiar e as questões da escola. Comenta que o primeiro ambiente da escola é a família. E a necessidade de um ambiente harmonioso para que possa sistematizar conteúdos e valores. E por isso não acontecer, torna-se muito difícil falar de sexo.
Comenta sobre as relações familiares difíceis, a falta de comunicação entre pais e filhos; sobre uma criança com infecção urinária e os motivos dessa infecção que não são comuns numa criança de 9 anos. Comenta que em 2016 houve uma pesquisa sobre os temas transversais e que estes tornar-se-iam conteúdos durante todo ano escolar, trabalhando competências e habilidades. Comenta sobre casos não notificados e quantos viraram inquérito. Ela pergunta ao público se eles têm noção da quantidade de denúncias que vieram a virar inquérito policial. Comenta sobre crianças vítimas de abuso que adquirem doenças sexuais. Afirma que há um certo quantitativo de adolescentes com doenças nas partes genitais causadas por negligência familiar. Comenta sobre como é difícil para os adolescentes falar sobre os seus problemas.
Informa sobre as campanhas dentro da escola onde atua para orientar os estudantes, principalmente do fundamental I. Comenta sobre a necessidade compreender a afetividade. É importante modificar o desenho cultural da sociedade. Fala da importância das discussões sobre as temáticas dentro da escola. Faz a apresentação da Cartilha da Comissão de defesa de direitos da criança e do adolescente da OAB-PA do Projeto Marajó. Faz a leitura de pontos importantes da cartilha e explica questões sobre o disque denúncia.
Há adolescente com doença que não consegue comunicar a mãe para poder tratar. A criança ou adolescente que sofre alguma violência sexual dificilmente consegue denunciar e quando o abusador é o pai ou padrasto a mãe sabe. Contextualiza a fala de uma mãe que apresentou a filha no conselho tutelar e informou que não sabia que o tio abusava da filha e o pai também abusava. A mãe informou que não denunciou porque não queria ver o marido preso. Essa é uma entre muitas situações de negligência pelas quais crianças e adolescentes passam. Agradece o convite e espera ter conseguido comunicar a importância do tema ser levado adiante.

Membro da Comissão de Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente da OAB/PA Adv. Marcelo da Silva Conceição

Começa agradecendo pelo convite para participar do evento. Comenta sobre as responsabilidades que são poucos que assumem. Fala das demandas dos casos que é muito grande e que seria maiores se todos os casos fossem apurados. Comenta sobre a historicidade do problema da violência contra crianças. Comenta sobre o código de menores e o problema de analisar a criança como um criminoso em potencial.
Mas, o que é ser criança? e como poderemos vencer os problemas com políticas higienistas? Que vigoram mesmo depois do avanço causado pela constituição de 1988. Fala da visão adultocentrica, e como o adulto se acha referência para o que a criança deve ser. Afirma sobre a necessidade de criar um espaço onde a criança possa construir sua infância e assim quebrar essa visão hierarquizada.
Comenta sobre sua vivência em uma escola no PAAR e comenta sobre a necessidade de reflexões mais profundas sobre o contexto escolar. Para que isso reflita na posição do adulto diante da criança. Potencializando a promoção de direitos e tentar defender a criança potencializando as ações necessárias por parte do Estado.
Comenta sobre os professores que se dizem tolerantes com relações homoafetivas, mas que faz isso vestido de ações heteronormativas o que acaba aprofundando as relações de violência.
Há necessidade de desconstruir principalmente dentro do judiciário que também tem uma postura machista e heteronormativa. É preciso parar de resolver os problemas a partir do ponto de vista do adulto. Comenta sobre a falta de desenvoltura dos governantes em atender os casos dentro da escola.
A escola não articula com os órgãos competentes e isso invisibiliza os casos de violência e o poder público aponta grande parte dos casos de violência como algo a ser resolvido dentro da família. Logo, reafirma a necessidade de grupos de trabalho para atuar dentro da escola com Propostas de Intervenção.

Mediadora Layse Ines Monteiro Maciel

Está sendo muito enriquecedor, tanto este momento como a mesa que aconteceu pela manhã. Fala sobre o adoecimento das pessoas que sofrem a violência, as pessoas que violentam ou mesmo as pessoas que atuam nesse enfrentamento.