sexta-feira, 30 de março de 2018

O JOVEM MERCADORIA: Compro, logo existo

Pensar sobre a pobreza e o trajeto que faz de uma classe a outra da sociedade derrama sobre o solo brasileiro o histórico sangrento das desigualdades e potencializa as propostas de luta social necessárias a manutenção de políticas públicas. Estamos um povo programado e classificado em categorias distintas: os aliciados, os estimulados ou forçados a promoção de produtos, tornando-os atraentes e desejáveis.

O adolescente das camadas periféricas é o sujeito que mais sente a distorção de valores, aquele que tem na desigualdade econômica o colaborador e gatilho do cenário de violência, pois os produtos que são encorajados a promover no mercado consumista do capitalismo são eles mesmos.

O processo de transformação do adolescente periférico de produtor a consumidor passa despercebido, pois esta é uma condição camuflada nas instituições governamentais que faz o adolescente acreditar que o trabalho seria a própria razão de viver. O trabalho que seria consequência da educação torna-se objetivo que não necessita com tanta força desta. O jovem torna-se mão de obra, ou melhor, mercadoria do Estado Capitalista.

A escola que prepara para o trabalho e para cidadania, declara na práxis uma nova contextualização semântica para ambos os termos: trabalho tornou-se obediência cega e cidadania submissão eterna e incontestável ao estado. A escola tenta desesperadamente integrar os adolescentes as condições exigidas nas empresas e a formação de uma grande quantidade de mão de obra que baratearia o custo do objeto humano. O Estado está incumbido de fazer a manutenção da pobreza preparando mão de obra barata que possa ser consumida pelo mercado capitalista.

O estado oferece ao adolescente uma garantia de valor de sua manutenção enquanto produto para o mercado e após esse preparo este tem por obrigação a manutenção de sua força de trabalho para que esta não se torne sucateada. A necessidade de consumir faz com que o sujeito não perceba que seu trabalho o tornou um produto consumível por empresas e que o curso de profissionalização que participou o tornou um produto com prazo de validade, só o que este consegue enxergar são suas necessidades, como: manter a casa, alimentação, roupas, sapatos, celulares, sem se preocupar com contexto político-econômico que administra seus impostos. É intenção do Estado garantir a produção do objeto-humano. O objeto-humano que reproduz o discurso político e mesmo sem ter carro, diz: “eu preciso de asfalto”.

O mercado de trabalho observa os sujeitos e seleciona os que terão valor no mercado e os meros retardatários que preencherão os quadros de violência e mesmo estes conseguem cumprir com parte de sua carga planejada pelo Estado, pois tem necessidade de alimento e outros bens que depositam ao consumir um percentual de impostos. Logo, o Estado capitalista aproveita toda forma de mão de obra, mesmo entregue a negligência ou mantido no cárcere o sujeito contribui, no entanto é totalmente descartável.

O adolescente pobre, negro e de capital cultural incoerente ao exigido pelas classes hegemônicas ao passar por esse processo de objeto-humano encontra-se em uma fila que parece muito uma prateleira cheia de pedreiros, carpinteiros, padeiros, eletricistas, domesticas, lavadeiras, cozinheiras, ensinados pela escola a serem felizes com sua condição de produto disponível aos montes no espectro do capitalismo. O objeto-humano que pode ser escolhido e descartado, pois está devidamente treinado para servir. Este na sociedade de consumidores torna-se bem de consumo e consumidor de sua própria mão de obra.

Para esse jovem objeto-humano resta escolher uma identidade, a disponível no mercado. O mercado inventa a necessidade e essa é consumida. O objeto-humano escolhe uma subjetividade na televisão e passa a consumir seus produtos. A compra e venda da capacidade de trabalho não estaria completa se o adolescente das periferias não estivesse emerso em produtos que o tornam interessante. A necessidade de consumir essa identidade ocorre facilmente, pois é esta que o dinamiza, que o insere em grupos. Sua subjetividade tornou-se um produto consumível e que pode ser alterado a todo e qualquer momento.

Esse fetichismo da subjetividade, oculta a realidade da sociedade de consumidores. A compra e venda de símbolos que constroem uma identidade. A subjetividade dos consumidores é feita de opções de compra.

Os gerentes de marketing e os redatores publicitários nos apresentam em sua publicidade como autônomos em nossas escolhas, nos apresentam como sujeitos desse faz de conta que a subjetividade do objeto-humano vem se tornado. A subjetividade enquanto produto tem um prazo de validade. Validade que tem relação com a composição familiar ou idade, outros baseiam-se na televisão ou redes sociais. O fetichismo da subjetividade baseia, em última instância, numa ilusão, uma mentira.

Não se espera dos consumidores que jurem lealdade ao objeto-humano que obtêm com a intenção de consumir, pois este é mantido pelo Estado em situação de negligência para que não consiga perceber sua própria situação.

domingo, 25 de março de 2018

DIREITOS SOCIAIS E CIDADANIA

A desvalorização da vida humana é tema recorrente nas mídias sociais, um carrossel de informações que parecem expor a verdade e o futuro da sociedade contemporânea, contextos de violência que dominaram a literatura dos intelectuais dessa década. Mas, como deixariam de discutir questões que afetam diretamente um tema tão relevante como é, cidadania?
Falar sobre cidadania é um caminho estreito pois sua maior problemática é a dificuldade de efetivação, defesa e garantia. A escola que é a principal ferramenta de potencialização de seu exercício tem encontrado dificuldades de ordem tanto no espaço físico como intelectual, sendo as crianças bombardeadas de informações negativas por mídias televisivas e redes sociais.
O livre acesso às políticas públicas deveria garantir direitos sociais, e a cidadania é um desses direitos. É fundamental para o sujeito a apreciação de direitos garantidos nos principais dispositivos legais como a Constituição Federal de 1988. Logo, o direito à cidadania é garantido por dispositivos legalmente reconhecidos pela lei brasileira, permitindo aos sujeitos apreender seu significado e importância na articulação de políticas públicas. No entanto essa efetivação tem sido pouco generosa, principalmente com as populações carentes.
Cidadania tem uma definição crônica, pois sua conceituação depende do tempo e espaço onde está declarada. Dois séculos atrás, cidadania, em nada se assemelha com o conceito apreciado nas sociedades modernas, pós-modernas e/ou pós-humanas.
Há regiões do mundo onde a palavra cidadania é legalmente excludente. As regras que definem quem é ou não cidadão tem relação com direito territorial, gênero e/ou de sangue. É importante compreender que é a cidadania que garante direitos sociais e a própria proteção do estado a partir de contextualizações sócio-histórico-político-cultural ligadas às lutas sociais por democracia. A tomada de consciência de si é essência fundante da cidadania nas ações dos sujeitos.
É nítida a importância dos períodos históricos da humanidade para organizar conclusões referentes ao que atualmente é cidadania. Direitos sociais legitimamente adquiridos por entidades da sociedade civil organizada e outros grupos igualmente organizados. Logo, a cidadania são direitos e deveres que estão vivos com a sociedade, partilhando tempo e espaço.
Em determinados momentos da história da humanidade era a cidadania que identificava o grupo social dos sujeitos. Por exemplo na Grécia antiga, a cidadania era concedida ao sujeito participativo, ativo nos negócios públicos e decisões políticas. Conclui-se que havia uma forte relação com a vida em sociedade. No entanto, em Atenas, ficavam excluídos da cidadania os escravos, as mulheres e pessoas que não haviam nascido na Polis. O que garantia cidadania a um grupo minoritário de sujeitos. É na Grécia que surgem as primeiras teorias sobre o significado de ser cidadão.
Em Roma os sujeitos recebiam uma classificação para efeito de cidadania e apenas alguns tinham cidadania ativa, pois só cidadãos ativos poderiam ocupar cargos públicos, participar de decisões políticas e direito a voto.
No entanto a dimensão universal de cidadania surge somente na modernidade, mesmo sendo dito democrático ainda haviam sujeitos excluídos dos direitos de cidadania, como: escravos, mulheres e os estrangeiros. Mas podemos, também, afirmar que os alicerces do atual conceito de cidadania são as inúmeras revoluções ocorridas pelo mundo: a Revolução Inglesa (1640), a Revolução Americana (1776) e a Revolução Francesa (1789). A revolução Inglesa é vista como marco inicial para organização dos direitos dos cidadãos, mesmo que ainda uma cidadania excludente e diferenciadora, mas ainda com a possibilidade de romper com a figura do súdito, aquele sem direitos. O fundamento universal da revolução Inglesa “todos são iguais perante a lei” precisava da inclusão de ideais de igualdade principalmente com as populações pobres.
A Revolução Americana, também contribuiu significativamente para esboçar o conceito de cidadania, contextualizando uma cidadania universal e redentora que se refere inclusiva para alguns e excludente de muitos, principalmente estrangeiros. No entanto é na Revolução Francesa que os direitos de liberdade, igualdade e fraternidade passam a ser discutidos como valores universais, reinventando o conceito de cidadania.
A Declaração dos Direitos do Homem, de 26 de Agosto de 1789, estabelece em seu Art. 1º “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”. Assim, o conceito de cidadania engloba valores sociais organizados em direitos e deveres que tem a influência dos movimentos ocorridos na Inglaterra, Estados Unidos e França, movimentações que possibilitaram discutir a humanidade dos sujeitos, garantindo sua liberdade.
No século XX, T. H. Marshall (1967) foi o primeiro autor a analisar a questão da cidadania na sociedade de classes, afirmando que a cidadania era possível a partir de três elementos: o direito civil (século XVIII), o direito político (século XIX) e o direito social (século XX). Argumenta que reconhecer ou simplesmente alcançar esses três elementos dinamizaria a convivência e levaria a igualdade de direitos.
A transformação das relações econômicas ampliaram as marcas da desigualdade social e econômica. O bem-estar social que é tarefa do Estado, tornou-se propaganda para campanhas políticas e o dinheiro público encontra “dono” durante as eleições. Findando dessa forma os benefícios sociais, educação básica, saúde e acolhimento das famílias em situação vulnerável.
A condição de deformidade da política brasileira levanta bandeiras que apontam (absurdamente) a cidadania como vilã e a desigualdade como solução dos problemas do país. E isso leva uma quantidade cada vez maior de jovens a clamar por absurdos como: Ditadura Militar, Fim de cotas, Segregação social e racial, entre outros absurdos. Uma juventude que clama a possibilidade de igualdade nos moldes do Sistema capitalista.